O tema do reajuste das Forças Armadas no Brasil é frequentemente cercado de debates, complexidade técnica e, muitas vezes, informações desencontradas. Diferente dos servidores civis, que geralmente buscam reajustes lineares baseados na inflação, a estrutura salarial da Marinha, do Exército e da Aeronáutica obedece a uma lógica própria, composta por soldos, gratificações e adicionais de habilitação.
Recentemente, as discussões sobre o reajuste das Forças Armadas voltaram à pauta econômica e política, gerando dúvidas tanto entre os integrantes da carreira quanto na sociedade civil. Entender essa dinâmica é fundamental para compreender como o orçamento público é gerido e como a valorização da carreira militar impacta as contas do governo.
Este artigo do Muito Rico explica tudo por trás dos aumentos salariais dos militares, explica a diferença entre “reajuste” e “reestruturação”, e analisa os principais pontos de debate atuais sobre os vencimentos da categoria. Confira!
A composição da remuneração militar
Para entender qualquer reajuste, primeiro é preciso compreender como um militar é pago. Ao contrário do setor privado, onde existe um “salário bruto” único, o contracheque militar é composto por diversas parcelas.
A base de tudo é o soldo, que varia conforme o posto ou graduação (de recruta a general/almirante/brigadeiro).
No entanto, o soldo é apenas uma parte da equação. Sobre ele, incidem diversos adicionais que podem, em alguns casos, dobrar o valor final recebido. Os principais são:
- Adicional Militar: um valor fixo inerente à profissão.
- Adicional de Habilitação: pago conforme a qualificação do militar (cursos de formação, especialização, aperfeiçoamento e altos estudos).
- Adicional de Compensação por Disponibilidade Militar: criado para compensar a dedicação exclusiva e a disponibilidade permanente exigida pela profissão.
Quando se fala em “reajuste das Forças Armadas”, raramente se trata apenas de aumentar o soldo. Frequentemente, as negociações envolvem a modificação nas porcentagens desses adicionais, o que gera impactos diferentes dependendo da patente.
Reajuste linear x Reestruturação de carreira
Um dos pontos de maior confusão é a diferença entre um aumento geral e uma reestruturação. No serviço público civil, é comum o “reajuste linear”, onde todos recebem a mesma porcentagem de aumento para repor a inflação (por exemplo, 9% para todos).
Nas Forças Armadas, a estratégia recente tem sido diferente. O último grande movimento, ocorrido através da Lei 13.954/2019, não foi um simples aumento, mas uma reestruturação da carreira. A lógica aplicada foi privilegiar a meritocracia e a qualificação.
Isso significa que, em vez de dar 10% de aumento para todos, o governo elevou significativamente os percentuais do “Adicional de Habilitação”.
Na prática, quem tinha mais cursos (geralmente oficiais de altas patentes e suboficiais antigos) recebeu aumentos reais muito maiores do que os militares em início de carreira ou de patentes mais baixas.
A polêmica dos percentuais
Essa escolha gerou debates intensos. Enquanto generais e coronéis viram seus rendimentos brutos crescerem substancialmente devido aos altos adicionais de cursos de “Altos Estudos”, cabos, soldados e sargentos em início de carreira tiveram ganhos modestos, ou, em alguns casos, apenas a reposição das perdas inflacionárias.
Essa disparidade é o cerne das discussões atuais sobre a necessidade de novos ajustes que contemplem a base da pirâmide militar.
O cenário atual e as negociações
Atualmente, o Ministério da Defesa e o Governo Federal discutem novos moldes para a remuneração.
O cenário econômico impõe restrições, e a categoria militar busca equiparação ou, ao menos, manutenção do poder de compra frente à inflação, comparando-se frequentemente a outras carreiras de Estado, como a Polícia Federal ou a Receita Federal.
Dois pontos principais dominam a mesa de negociação atual:
- Reposição inflacionária: a busca por um índice que cubra a desvalorização da moeda nos últimos anos, algo que afeta principalmente os praças (soldados, cabos e sargentos).
- Correção de distorções: existe uma pressão interna para que novos reajustes sejam mais igualitários, diminuindo o fosso criado pela reestruturação de 2019 entre o topo e a base da carreira.
O impacto do reajuste das Forças Armadas na Previdência
Não se pode falar de salário militar sem mencionar a previdência. Diferente do regime geral (INSS) ou do regime jurídico único dos servidores civis, os militares possuem o Sistema de Proteção Social.
Quando ocorrem reajustes ou reestruturações, há uma contrapartida. Na reforma de 2019, por exemplo, para custear os aumentos nos adicionais, a alíquota de contribuição para a pensão militar aumentou (atualmente em 10,5% para ativos, inativos e pensionistas).
Além disso, os militares mantêm a paridade e a integralidade. Isso significa que, quando o pessoal da ativa recebe um reajuste no soldo ou na estrutura geral, os militares da reserva e os pensionistas também são beneficiados.
Isso eleva o “custo” de qualquer aumento concedido, pois o impacto orçamentário é imediato em toda a folha de pagamento, não apenas para quem está trabalhando.
Perguntas Frequentes
O reajuste dos militares é igual ao dos servidores civis?
Não necessariamente. Embora possam ocorrer em épocas próximas, as legislações são diferentes. Civis geralmente recebem reajustes lineares, enquanto militares frequentemente passam por revisões de adicionais e gratificações.
Pensionistas recebem o aumento?
Sim. Devido à regra da paridade, qualquer alteração na estrutura remuneratória dos militares da ativa (soldo e adicionais gerais) é repassada aos militares da reserva e aos pensionistas.
O reajuste afeta o auxílio-alimentação?
Geralmente, o auxílio-alimentação é discutido separadamente do soldo. No entanto, o governo pode optar por reajustar benefícios (como auxílio-alimentação e auxílio-creche) como uma forma de dar ganho real sem mexer na estrutura complexa dos soldos e previdência.
Os militares têm direito ao FGTS com o reajuste?
Não. Militares das Forças Armadas não possuem FGTS. O regime de trabalho é estatutário e regido por leis específicas, garantindo estabilidade (após 10 anos para praças ou imediata para oficiais de carreira), mas sem fundo de garantia.
O futuro da remuneração nas Forças Armadas!
O reajuste das Forças Armadas é uma equação complexa que envolve reconhecimento profissional, hierarquia, disciplina e responsabilidade fiscal.
Para o militar, entender se o aumento virá via soldo ou via adicionais é crucial para planejar as finanças pessoais. Para a sociedade, compreender esses gastos é essencial para o debate democrático sobre o orçamento da Defesa.
À medida que as negociações avançam, a tendência é que se busque um equilíbrio entre a valorização da meritocracia (cursos e especializações) e a necessidade de garantir um piso digno para a base da tropa, que constitui a maior parte do efetivo.
Fique atento aos canais oficiais do Ministério da Defesa e às publicações no Diário Oficial da União para acompanhar as definições finais sobre os percentuais e datas de implementação!

